Autor
Eduardo Gust
Comecemos esvaziando. Tiremos do projeto de Eduardo Gust as poltronas de couro cru e o banco de madeira ondulada, os potes de barro agrupados no chão, os tapetes, a escultura, os livros. Tiremos a mulher de vestido que atravessa os renders. Deixemos a sala e a cozinha da Casa Verde nuas, e olhemos para o que sobra.
Sobra um céu, e ele tem limite. Sobre o estar, um forro em grelha de madeira escura, caixotões fundos e regulares, impõe sua ordem de ponta a ponta; ao chegar à cozinha, a grelha para, e um forro liso de gesso assume. A estrutura da casa já desenhava essa fronteira no chão, o ipê que percorre toda a base cede na cozinha ao piso de pedra que a própria casa determinou, e o projeto levou a fronteira ao teto: onde o chão muda, o céu muda junto, e o módulo inteiro fica dividido em dois climas sem que uma única parede se levante. Um pé descalço sabe onde essa fronteira passa antes do olho, a madeira morna cedendo à pedra fria no meio de um passo, e o ouvido a confirma, porque um teto de caixotões fundos abafa e aquece o som que o gesso devolve nítido. Sobra, na parede do estar, a resposta da grelha, uma estante de placas claras e delgadas que repete a geometria do teto em negativo, grade escura no alto, grade de luz embaixo, o mesmo desenho falando duas vezes em pesos opostos. Sobra a cozinha como campo de contraste; sobre o chão de pedra dado pela casa, a ilha escura veiada e a marcenaria branca e chapada declaram o preto e o branco como camada estética própria, dentro de uma edição que trabalha em meios-tons. Sobra o rasgo horizontal emoldurando a folhagem do átrio como um quadro vivo pendurado sobre a bancada. Sobra, no lavabo, uma rocha bruta flutuando diante de uma parede âmbar acesa por trás. E sobra o que já era da casa e permanece soberano, o átrio central envidraçado acompanhando o módulo, o verde como ponto mínimo de natureza.
A estrutura por si só
O projeto vazio continua dizendo tudo. Estar e cozinhar já estão escritos no teto e no chão antes de qualquer móvel chegar, cada território com seu céu e seu solo, e essa é a prova que interessa. O conceito que o autor chamou de entre linhas se cumpre nas linhas mesmas, a grelha estruturando, os planos delimitando, os eixos orientando, nenhuma vedação em lugar nenhum. O vazio, aqui, trabalha como matéria; o intervalo entre as duas grades é o lugar onde o projeto de fato acontece, e a divisão mais importante dele passa acima da cabeça. Arquitetura é o que fica.
A casa habitada
Agora devolvamos tudo. Entram as poltronas de couro e madeira clara, as mesas baixas de pedra clara em formas de nuvem, o sofá orgânico, a cerâmica no chão, e o projeto revela sua segunda camada, a leitura assumidamente moderna e brasileira do viver contínuo. Planta livre, forro ritmado, matéria no lugar de parede, mobiliário fluente nessa tradição. Habitado, o módulo executa a sequência que o memorial promete, a sala acolhe, a cozinha densifica, o lavabo suspende. Junto à janela do estar, uma poltrona de madeira clara e couro espera diante da cortina; é o canto de ler do módulo, o refúgio mínimo que toda casa deve a quem a vive. Sob a grelha, a madeira e o couro aquecem; sob o gesso, o preto e o branco afiam. E há um detalhe que o memorial não reivindica, porque escapa à intenção. Quando o sol atravessa o átrio, a folhagem entra carimbada em sombra sobre a pedra preta da cozinha e do jantar, e a casa assina o projeto com o próprio verde. É o detalhe que fere quem olha com calma, e pertence à estrutura tanto quanto ao autor. A pedra que flutua no lavabo é a única interrupção que o sistema comete fora do teto, a pausa sensorial que o autor reivindica, e também o momento em que o projeto mais se arrisca, porque a suspensão beira o cenográfico dentro de uma linha que pede contenção. Num sistema de tamanha disciplina, porém, o gesto teatral único funciona como exceção que confirma a régua. E o conjunto povoado sobe a temperatura da edição. O contraste da cozinha e o âmbar do lavabo empurram o estado energético acima do repouso que a linha prescreve, e a grelha impõe uma ordem mais racional que naturalista. É obediência estrutural com sotaque próprio, o tipo exato de particularidade que esta série existe para mostrar; a linha se aprofunda também por quem a estica.
O exercício de esvaziar e devolver fica registrado como régua desta mostra. O Arquitetura em Versos expõe arquitetura, e o mobiliário, quando entra, entra como população reversível de um espaço que já se sustenta sozinho. No projeto de Gust, as duas versões contam a mesma história, a nu e povoada, e o tempo contará a terceira, a madeira do forro escurecendo mais um tom, a pedra ganhando o fosco do uso, o desenho permanecendo onde mora, nas relações entre as coisas. Entre as linhas dele há um espaço que já era habitável antes do primeiro móvel. Ao lado das outras respostas desta série, ele prova que dentro da mesma casa cabem temperamentos distintos, a hipótese que o Arquitetura em Versos existe para testar.