Arquitetura como Retiro Íntimo
O que faz um espaço se tornar verdadeiramente íntimo? Em “A Poética do Espaço”, Gaston Bachelard investiga imagens como a concha, o ninho e a crisálida para falar justamente desses lugares de recolhimento, onde o indivíduo se volta para dentro e a imaginação ganha espaço. Essa leitura encontra um paralelo interessante no “Casulo do Devaneio”, de Lídio, principalmente na maneira como o projeto transforma a leitura em um momento de retiro. Em vez de uma biblioteca pensada apenas para acomodar livros e leitores, o ambiente cria diferentes possibilidades de permanência, permitindo que duas pessoas estejam ali ao mesmo tempo sem necessariamente vivenciarem o espaço da mesma maneira.
O elemento que mais evidencia essa proposta é o saco-balanço, suspenso no centro da biblioteca. A escolha é interessante porque ele assume funções diferentes ao mesmo tempo: é um lugar de leitura, na nossa opinião, um objeto escultórico, e o principal elemento de representação do casulo. Sua posição quase central provoca uma certa estranheza, e é justamente isso que impede que ele passe despercebido. Ao envolver o corpo, suspender o usuário e permitir que ele se encolha, o balanço cria uma situação de retiro dentro do próprio ambiente, que por sinal, também foi planejado para ser um retiro. A analogia com o casulo é literal, mas aqui a literalidade funciona porque não fica restrita à imagem, pois ela interfere diretamente na maneira como o corpo ocupa o espaço.
Também é difícil enxergar o ambiente apenas pela ideia de uma simplicidade de “casa de avó”. A leitura que o espaço provoca parece caminhar para outro lugar. A madeira escura, a iluminação pontual e a presença mais contida do ambiente criam uma atmosfera de interioridade, quase como um lugar secreto dentro da casa. Existe uma sensação de que algo pode estar escondido ali, e essa pequena dose de mistério combina mais com a ideia de casulo do que com uma memória doméstica convencional. O espaço não parece querer reproduzir uma lembrança específica, mas construir um lugar onde o usuário possa se retirar por alguns instantes do resto do mundo.
Talvez por isso a frase final do projeto seja tão eficiente: “Na quietude do casulo, a arquitetura deixa de ser parede para ser asa”. Ela resume uma operação que o projeto consegue sustentar espacialmente: criar um lugar de recolhimento para que a imaginação possa se expandir. O interessante não está em transformar literalmente o ambiente em um casulo, mas em fazer com que ele produza essa condição de interioridade. Entre a poltrona e o balanço, entre a estrutura escura e os pontos de luz, o projeto constrói diferentes graus de afastamento do mundo. E talvez seja justamente essa a função mais interessante de uma biblioteca, oferecer um lugar para estar sozinho sem estar, de fato, isolado, mas se for da vontade do leitor, que assim seja.