Escavando o céu
A relação com o chão talvez seja uma das questões mais interessantes para pensar este rooftop. Em Brasília, o rebaixamento, ou a elevação aparecem como estratégias recorrentes para construir relações entre arquitetura, paisagem e percepção. No Congresso Nacional, por exemplo, a plataforma horizontal e os níveis inferiores produzem uma leitura pouco convencional entre superfície e subsolo. No rooftop da Casa Verde feita por Taís Ribeiro, essa lógica reaparece em outra escala e condição, pois em vez de simplesmente ocupar a cobertura, o projeto escava simbolicamente o próprio piso para construir um lugar dentro de outro lugar.
É justamente aí que uma solução bastante simples ganha força. O desnível transformou o chão em mobiliário, um espaço de convivência, fazendo com que rampas e assentos deixem de ser elementos acrescentados ao espaço e passem a nascer da própria superfície. Os patamares introduzem diferentes posições para estar, enquanto a passarela acrescenta uma segunda camada de percepção: de baixo, o usuário experimenta o espaço como uma sequência de cotas; de cima, passa a observá-lo e a enquadrar a paisagem de outra maneira. A simplicidade do gesto é, nesse caso, uma qualidade: o projeto não precisa acumular objetos para produzir diferentes formas de ocupação.
Mas há uma questão importante nessa escolha. O discurso do projeto fala em continuidade entre céu, horizonte, matéria e uso, e a arquitetura sustenta parte disso justamente porque não depende de grandes gestos formais. Ao mesmo tempo, o paisagismo poderia assumir um papel ainda mais estrutural como vemos na arquitetura bioclimática. O pequizeiro, por ser uma espécie nativa do Cerrado e carregada de significado cultural, introduz pertencimento em um espaço que poderia facilmente se tornar genérico, então, por que não trazermos mais e mais? Brasília possui um clima quente e seco, o que torna a presença vegetal também relevante para a possibilidade de permanência no rooftop. Uma pequena sugestão, por que não aproximar mais a árvore da própria topografia criada, e fazer com que ela participe daquele rebaixamento, da sombra e das relações de permanência? Poderia tornar mais evidente a conexão entre paisagem e arquitetura.
No fim, o interesse deste rooftop não está em sua complexidade, mas na decisão de fazer o chão deixar de ser plano e passivo. Em uma cobertura, onde a relação com o terreno original já foi perdida, rebaixar a superfície é quase uma contradição produtiva: cria-se uma nova topografia para recuperar a sensação de estar dentro da paisagem. O projeto parece perguntar, ainda que de forma sútil, se um rooftop precisa ser necessariamente um lugar elevado e exposto ou se também pode construir suas próprias profundidades nele mesmo.