GIF

✱ FORMA ✱ MATÉRIA ✱ TEMPO ✱ SISTEMA ✱ FORMA ✱ MATÉRIA ✱ TEMPO ✱ SISTEMA

✱ FORMA ✱ MATÉRIA ✱ TEMPO ✱ SISTEMA ✱ FORMA ✱ MATÉRIA ✱ TEMPO ✱ SISTEMA

Suíte_03

RAW Arquitetura

Minimalismo cinza

Se o minimalismo naturalista ensinou a gente a associar essa estética ao bege, ao branco e à madeira clara, talvez o RAW Arquitetura esteja apontando para outra possibilidade. E se o minimalismo pudesse ser cinza? Não necessariamente porque o cinza seja a cor dominante do ambiente, mas porque a suíte trabalha com uma paleta de baixa saturação, poucos contrastes cromáticos e uma materialidade escura que deixa o desenho falar antes da cor. O próprio escritório apresenta a suíte como continuidade da materialidade utilizada anteriormente, buscando manter a unidade do conjunto. Aqui, essa unidade aparece no ipê, que começa no piso e sobe pela parede da cabeceira, fazendo com que o material deixe de ser apenas revestimento e passe a organizar visualmente o quarto.
É justamente nessa continuidade que está uma das escolhas mais interessantes do projeto. Colocar o piso na parede poderia parecer uma decisão excessiva, principalmente porque o ipê ocupa uma superfície bastante extensa. Mas o desenho das peças impede que essa massa de madeira seja completamente estática. As diferentes dimensões e o encaixe aparentemente irregular das réguas criam um ritmo próprio, enquanto a cabeceira deixa de funcionar como um objeto isolado e passa a fazer parte de um único plano. É uma escolha ousada justamente porque não tenta esconder sua presença. E talvez seja isso que faça sentido dentro da proposta de minimalismo. O ambiente não precisa ser vazio para ser contido. Ele pode ter textura, desenho e materialidade, desde que as decisões estejam trabalhando na mesma direção.
A arandela articulada e a cadeira utilizada como mesa de cabeceira entram nessa mesma lógica. São soluções que já apareceram em outros interiores e que começam a parecer parte de um repertório bastante reconhecível do design contemporâneo. A novidade, portanto, talvez esteja menos nos objetos e mais na maneira como eles são colocados em relação ao conjunto. A arandela avança sobre a cabeceira, a pequena mesa ocupa o intervalo ao lado da cama e, do outro lado do quarto, a poltrona e a estante introduzem outra escala de uso. Nada parece depender de um excesso de mobiliário para preencher o ambiente. A composição trabalha com poucos elementos, mas cada um deles tem presença suficiente para participar do desenho.
E tem uma escolha que, justamente por existir, faz a gente questionar o quanto ela era necessária. A obra de arte colorida sobre a cabeceira introduz rosa e azul em meio à paleta escura e pouco saturada. É quase o gesto clássico de colocar um ponto de cor para interromper um ambiente neutro. Só que, olhando para a suíte, fica a impressão de que o projeto já tinha encontrado seu interesse antes dela. O ipê, o desenho da cabeceira, a arandela, a cadeira e a própria variação entre os tons de cinza já constroem uma composição suficientemente forte. Talvez o RAW esteja mais próximo de uma ideia de minimalismo cinza do que de uma estética que precise ser salva por uma cor de contraste. E se for esse o caso, talvez a pergunta mais interessante não seja qual cor usar para quebrar o minimalismo, mas por que ainda sentimos que precisamos quebrá-lo.