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✱ FORMA ✱ MATÉRIA ✱ TEMPO ✱ SISTEMA ✱ FORMA ✱ MATÉRIA ✱ TEMPO ✱ SISTEMA

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Sala+Cozinha+Lavabo

Mariana Titoneli

O que a luz escolhe mostrar

Finalmente descobrimos o que acontece quando aquilo que faz parte de nós se materializa em um espaço. No projeto de Mariana Titoneli, a arquitetura parte de uma dimensão muito íntima de si mesma; sua relação com uma religião de matriz africana. A escolha de traduzir essa identidade com sutileza alcança o projeto sem transformar a crença em elemento decorativo ou em uma representação literal, caricata. Ela aparece nas imagens, nos objetos, nas texturas e em uma paleta que percorre tonalidades de verdes, bege, madeira escura e preto. Existe uma brasilidade ali, construída a partir de referências que fazem parte da própria arquiteta. E talvez seja justamente por isso que o projeto desperte tanta curiosidade para nós, pois quando uma arquitetura nasce de algo tão pessoal, quanto ainda podemos descobrir dela? Estamos curiosos.
Essa identidade aparece nos detalhes, e alguns deles carregam uma força particular. No lavabo, o reboco baiano introduz uma materialidade que poderia facilmente conduzir a uma experiência mais intensa. No hall, a fotografia de uma mulher com vestimentas ligadas à religião de Mariana ganha ainda mais presença quando encontra a iluminação cuidadosamente direcionada às esculturas e aos objetos. Não nos cansamos de falar sobre a importância das luzes propositais em um espaço. A luz escolhe o que deve ser visto, muda a nossa percepção e pode fazer com que um elemento que estava ali o tempo todo passe a ser percebido de outra maneira. É quase cenografia, estamos tão acostumados a pensar a arquitetura pelo que conseguimos tocar, medir e nomear que esquecemos o quanto sentimento outros elementos podem criar. A luz dá forma ao que parecia intangível e, por alguns instantes, faz o espaço ser muito mais do que aquilo que está fisicamente diante de nós. Bateremos sempre nesta tecla.
Ao mesmo tempo, a integração entre cozinha, jantar e estar mantém essa narrativa sem criação de verticalidades entre os ambientes. A paleta extremamente sóbria constrói uma proposta minimalista naturalista bastante segura, enquanto as referências brasileiras aparecem de maneira mais pontual, salpicadas pelos ambientes. E talvez seja justamente aí que surja a nossa curiosidade. Já sabemos que minimalismo não precisa necessariamente estar preso aos beges e às tonalidades mais contidas, quantas outras possibilidades poderiam existir dentro dessa mesma linguagem que Mariana criou? Que outras cores, imagens ou materialidades poderiam aparecer sem que a sutileza deixasse de ser sutileza? Fiquemos no imaginativo, e no campo de nossas ideias. Mas que fique a sugestão: não tenha receio de transbordar todo o seu talento que já é seu, sobre sua arte. Queremos ver mais versões de você. Estamos extasiados.
Por fim, temos uma coincidência aqui que talvez a própria Mariana nem tenha percebido quando escolheu suas referências. Entre as inspirações para o projeto estava Equilibrium, da Anitta, que na época, tinha o conceito do álbum criado, mas sem o lançamento das músicas. A arquiteta, de um jeito completamente diferente, também colocou sua relação com essas crenças dentro daquilo que cria. Uma pela música, outra pela arquitetura. E talvez seja justamente essa aproximação que torne tudo tão bonito sem uma analogia criada de forma proposital.